quinta-feira, 25 de setembro de 2008

ETNOPOESIA E ORALIDADE: a voz do outro.
ETNOPOESIA AND ORALITY: the voice of other




Resumo: O presente trabalho é uma proposta metodológica baseada na obra de Hubert Fichte intitulada – “Etnopoesia: antropologia poética das religiões afro-americanas” – um método desenvolvido por esse pensador alemão, como uma maneira de dar voz significativa ao outro, expressando seus tormentos, sua solidão. É uma resposta à maioria dos pesquisadores quando perguntam: Devemos contar tudo? Devemos fazer uma seleção? Devemos transfigurar os fatos? – Devemos contar tudo. Essa é a resposta nesta abordagem em que esse tipo de expressão de oralidade permite as representações de uma realidade contraditória ser apresentada na esfera onde se encontra e da maneira que se apresenta, de modo que, somente quem ganha a autorização para falar é capaz de representar essa realidade.

Palavras-chave: Oralidade – História – Etnopoesia – metodologia – representações;

Abstract: The present work is a proposal methodological based on the work of Hubert Fichte entitled – “ Etnopoesia: poetic anthropology of the afro-American religions ” – a method developed by this German thinker, like a way of giving significant voice to other, expressing his torments, his solitude. It is an answer to most of the investigators when they ask: Should we have counted everything? Should we have done a selection? Should we have transfigured the facts? – We should have counted everything. This is the answer in this approach in which this type of expression of orality allows the representations of a contradictory reality to be presented in the sphere where if it finds and in the way that shows up, so that, it only who gains the authorization to speak is able to represent this reality.

Key words: Orality – History – Etnopoesia – methodology – representations


Débora conta:

Sou de Iemanjá Ogunté!
Nasci em Dourados em 17 de setembro de 1978.
Meus pais são A e I.
Estudei até a sexta série.
Sou faxineira!
Freqüento o terreiro desde os oito anos.
Freqüentei Umbanda.
Hoje estou no Candomblé.
De santo, tenho onze anos.
O primeiro terreiro que freqüentei foi “Mãe Gasparina”, ficava no Jardim Santa Brígida.
Conhecia vários terreiros: Tião, Seu Paulino, Dona Eva...
Conhecia esses terreiros nessa época, de 86, 87, e 88.
Existiam uns dez ou quinze terreiros.
Não me lembro o nome de todos os chefes dos terreiros.
A minha ida ao terreiro já veio de família,
Da parte da minha mãe, a irmã dela era espírita,
Daí já veio.
Eu comecei a incorporar na Umbanda.
Foi uma coisa de repente.
Passei mal.
Fui...
Incorporei![...]
Nessa época eu já era homossexual.
Eu era,
Sem ser travesti,
Eu era gay.
Aos dezesseis anos me tornei travesti.
Passei a me vestir de mulher.
Sempre fui faxineira!
Me sinto mulher!
Já sou mulher!
Se já optei por isso,
Sou mulher!
[2]

O fragmento que apresento acima se refere a uma das entrevistas que coletei durante as pesquisas para o trabalho do mestrado. Essas entrevistas estiveram permeadas por referenciais metodológicos dos quais me foram de grande utilidade não apenas na composição das análises sobre o meu objeto de estudo, mas, sobretudo, porque me propiciaram trilhar num campo novo, chamado de etnopoesia.
Esse fragmento é, portanto, uma obra etnopoética, conforme o que tenho estudado a respeito de seu criador – Hubert Fichte. Note que ela esteticamente e narrativamente se configura como uma poesia, sem ter transcriado a sua linguagem ou mesmo excluído os intervalos de reflexão em que a depoente pensa sobre o que ela vai falar.
Quando ela diz no final de sua fala: “Já sou mulher!” antes que diga a próxima fala há um intervalo, um momento, uma parada, em que o recurso da memória, em que a objetividade da construção da próxima fala deve vir a complementar a anterior, e ai continua: “se já optei por isso”, há uma outra pausa, de leve e momentânea até que ela conclua a sua idéia: “Sou mulher!”. Esteticamente é essa a construção metodológica que nos ensina Hubert Fichte quando escreve sua obra “etnopoesia” – não fala ao leitor sobre essa pausa, nem ensina como escrever poesia de conteúdo antropológico. Mostra ao leitor através do sentir, da poesia, o seu objetivo, o objetivo da poesia, ser sentida, não entendida e/ou mesmo escrita por meio de uma metodologia, apenas sentida.
Ouvindo um poeta falar para seus alunos sobre a sua compreensão de teatro, ele citava um trecho da obra de Manuel de Barros – Livro sobre nada (1996), em que diz: “poesia não é para se entender, poesia é para incorporar, entender é parede, procure ser uma árvore”. Dessa forma quando Hubert Fichte apresenta sua obra “Etnopoesia”, ele não está preocupado em criar conceitos ou mesmo mostrar passo a passo o significado dessa obra em que o seu nome e o conceito da mesma se inserem em um único represêntamem: “etnopoesia”. Cabe ao leitor não entender, incorporar, afinal fale-se de poesia e não de parede, parafraseando Manuel de Barros.
E incorporar é o objetivo do autor com a sua obra, e esse incorporar está também ligado ao incorporar o outro – na ótica ou pelo viés da alteridade – pôr-se no lugar de... Enfim, quando se lê sua poesia, incorporam-se os sentimentos desse outro, coloca-se no lugar desse outro. Mas é importante esclarecer que o lugar desse outro não é apenas o geográfico, mas o imaginário, o representativo. Essa poesia deixa explícito o trabalho da memória – que seleciona as informações, objetiva a construção das falas, e em suas pausas, entre esta ou aquela frase dita, reivindicada, ou não dita e começada a dizer e não finalizada, apresenta-se o sentimento de quem viveu e experienciou aquela situação.
Etnopoesia é a um tempo um programa científico e poético, ligando a postura fundamental do etnólogo, que avança indagando e pesquisando, com a postura fundamental do poeta que procura a correspondência verbal. Nada deve ser poupado. A alternância de entusiasmo e decepção que acompanha todo o viajante deve ser representada na contraditória realidade em que o exótico está ao lado do banal, a pureza junto da corrupção, o autêntico ao lado da imitação, a velha sabedoria ao lado dos rios poluídos. (FICHTE, 1987, p. 26).

As palavras descritas acima, que conceituam a etnopoesia são de Wolfgang Bader, o responsável pelo prefácio da obra de Hubert Fichte intitulada “Etnopoesia: antropologia poética das religiões afro-americanas”. Fichte baseado nas pesquisas de campo de Malinowski desenvolve seu método como uma maneira de dar voz significativa ao outro expressando seus tormentos, sua solidão, o autor radicaliza o programa etnopoético. É uma resposta à maioria das indagações de muitos pesquisadores, sobretudo os etnólogos quando perguntam: Devemos contar tudo? Devemos fazer uma seleção? Devemos transfigurar os fatos?
A obra de Fichte, responde a todas as perguntas quando ele diz: “acho que devemos contar tudo” (p. 26). Assim, a etnopoesia extrai uma soma crítica de ciência e literatura porque se liga ao conceito moderno de poesia, também transcende a doutrina lingüística exclusivamente intrínseca, ampliando a poesia como meio de conhecimento.
“Nada deve ser poupado”. É o entendimento de Wolfgang Bader quando pensa na obra do Fichte. Para ele, toda essa realidade contraditória deve ser representada na esfera em que se encontrar, da maneira que se apresentar estará sempre ligando novas realidades e propondo um novo meio de conhecimento, em que somente a subjetividade de quem ganha a ‘autorização’ para falar é capaz de representar essa realidade. O pesquisador nesse caso se coloca como intermediário, anotando e segurando o gravador, apenas isso.
A idéia principal nessa metodologia parte em princípio de que o pesquisador se limita pelas regras da linguagem formal, pelas regras de formulação do pensamento que se liga a esse ou aquele referencial teórico. Esses entrevistados, atores, personagens de sua própria história, falam por si, livres, sem limite algum para expressar as suas escolhas e fazer as censuras de sua própria história, sem precisar explicar por que.
Essas censuras devem ser levadas em conta de sua existência, afinal, falamos também de memória enquanto recurso de descrição de fatos, e nesse sentido cabe também ao pesquisador observar como esse processo é construído através da fala, ou melhor, do discurso.
Esse discurso, essa oralidade que se apresenta em forma de informações, são também imagens projetadas no social, imagens representativas da apropriação de mundo feita por este ou aquele sujeito, ator ou personagem histórico, que reconstrói a sua trajetória ressignificando os elementos que compõem diariamente essa imagem.
Essa imagem refletida só é possível a partir de um princípio de desiderato, ou seja, de intencionalidade que por um lado é consciente e que por outro lado, acontece de forma inconsciente, de acordo com as experiências que cada indivíduo traz consigo.
O processo de projetar uma imagem, carnavalizando as realidades, ressignificando as mesmas, possibilita também um outro processo que é o de re-criar essa realidade, adequando-a numa sintonia nova, que deve seguir um projeto consciente de re-apropriar-se do universo circundante sempre através de um novo olhar.
Para tanto, a realidade que é desperta, possui um outro lado, uma outra representação, um outro sonho que implícito nesse imaginário, contribui decididamente para a s transformações que se consolidam.
Portanto,
Essa realidade não é pouca, pois o que nos desperta é a outra realidade, escondida por trás da falta do quem tem lugar de representação [...] o real é para além do sonho que temos que procurá-lo no que o sonho revestiu, envelopou, nos escondeu, por trás da falta de representação, da qual lá só existe um lugar-tenente. (LACAN, 1982, p. 61).
Na constituição dessas representações tem-se assim, elementos que constituem uma outra realidade que não tem lugar de representação, nem espaço.
E onde então, está o lugar que se possa representá-los?
Antes de responder esse questionamento, quero acrescentar a essa questão, ou seja, da memória, da representação criada, ressignificada, reelaborada pelo entrevistado, por quem tem ‘autorização’ para falar – o que Fichte observa quando defende sua teoria de etnopoesia ou sua maneira de falar de oralidade:
Ela se tornaria claramente uma construção multidimensional – uma construção poética. A linguagem, ao contrário da linguagem tática da propaganda e da política, se renova no instante em que se configura como enunciado, juntamente com o objeto desse mesmo enunciado.
O mundo seria concebido por mais tempo como um supermercado no qual se retiram pacotes de 250g; ele não se dividiria mais em sujeitos e objetos de descrição, pessoas estigmatizadas. A pesquisa etnológica se transformaria em um processo dialético, uma correspondência lingüística. Personalidades perturbadas trabalham num mundo em ruínas. Eis a situação. Com os pés no ar. Manifeste-se! Vomite! (Op. Cit. 1987, p, 31).
O lugar em que se possa representá-lo! Voltando à questão, a resposta, está na fala revelada de Fichte, na construção multidimensional que é a construção poética. Nessa construção cabem todos os tipos de representação, as apropriações do mundo particularizadas na mente de quem também faz parte desse universo, e fazer parte desse universo não enquanto sujeito apenas, indeterminado ou determinado, ativo ou passivo, mas como a própria extensão dele.
Poesia, porque poesia? Porque - ainda me referindo a citação e respondendo a questão – a poesia é linguagem e ao contrário da linguagem tática da propaganda e da política - como disse o autor – se renova no instante em que se configura como enunciado, juntamente com o objeto desse mesmo enunciado.
Tudo se renova, assim como a memória reelabora os elementos, os fenômenos do passado na medida em que novas experiências de vida são a ela acrescentadas. O lugar de representação de que falo, estaria assim, dessa forma, no interior de um processo dialético, relacionado a uma correspondência lingüística. Estaria concentrado nessa esfera, de um espaço amplo e não limitado para se representar todas as infinitas apropriações que os personagens fazem do mundo ao reconstituir ou constituir a sua história, que já não é sua, porque está relacionada a outras tantas histórias constituídas da mesma forma.
O resultado desse processo é que essa representação passa a fazer parte do universo do sujeito que o criou, assim como o pintor de Nietzsche:
Fiel à natureza completa! Como pode ele chegar a isso? Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a natureza na imagem? A minha ínfima parcela do mundo é infinita! Dele só pinta aquilo que lhe agrada. E o que lhe agrada? Aquilo que é capaz de pintar! (NIETZSCHE, 2004, p. 37).

Essa forma de apropriar-se do mundo, de ressignificar na memória os elementos vividos de experiências passadas, que dão origem as entrevistas que muitos de nós usamos hoje enquanto fonte de pesquisa é, sobretudo, uma forma de conhecimento primordial socialmente elaborada e partilhada, que tem uma finalidade prática: conhecer e agir sobre o mundo, num sentido de ajudar com as necessidades diárias. Deste modo, essa representação deve integrar os objetos de conhecimento ao nosso universo mental e afetivo, que também pode ser chamado de visão de mundo, e relacionar esses objetos com a nossa identidade. Implica numa relação específica entre o sujeito e um objeto de conhecimento. (ANDRADE, 1995).
O sujeito se auto-representa na representação que faz do sujeito, assim como o pintor de Nietzsche que imprime sua identidade naquilo que pinta.
O autor quando fala da necessidade do pintor liquidar a natureza na imagem, fala basicamente da necessidade desse pintor representar a natureza de maneira fiel ao que ela é, em vez de fazê-lo, só pinta o que lhe agrada, somente aquilo que ele é capaz de pintar, o conhecido: o seu mundo – enquanto conjunto de símbolos, signos, que combinados, revelam uma parcela do mundo representativo atribuído pelo pintor.
Essa linguagem reproduz, ou representa esse indivíduo, ela é:
Apenas o poder delegado do porta-voz cujas palavras (quer dizer, de maneira indissociável, a matéria de seu discurso e sua maneira de falar) constituem no máximo um testemunho, um testemunho entre outros da garantia de delegação de que ele está investido. Pode-se dizer que a linguagem, na melhor das hipóteses, representa tal autoridade, manifestando-se e simbolizando-a. (BOURDIEU, 1998, p. 87).
A linguagem possui significado, mas sua força não está escondida nela mesma, não é dependente dela mesma, ao contrário, é do sujeito que a profere que resulta em significado e em força de significado. Isso quer dizer que o poder das palavras não está nas próprias palavras, mas sim nos sujeitos que explicam suas ações por meio das palavras.
“Essa eficácia simbólica das palavras se exerce apenas na medida em que a pessoa-alvo reconhece quem a exerce como podendo exercê-la de direito” (BOURDIEU, Op. Cit, p. 95). O fragmento que apresentei no início deste texto é um exemplo. Como a Débora constitui o universo que ela representa? Quem é a Débora?
Esse personagem era um gay, que se tornou um travesti, mas que não se vê mais como um, e sim, se transformou em uma mulher, por ‘opção’ sua.
Essa identidade de mulher, já estava consolidada, simbolizada quando ela proferia que “Sou faxineira!”. Depois, o símbolo de faxineira foi explicado, “eu era, antes de ser travesti, eu era gay”. Sobre o ser travesti, essa fase intermediária na sua metamorfose, isso não é revelado, apenas simbolizado quando ela diz: “passei a me vestir como mulher” – é a fase reveladora de sua transformação, que ela encobriu, pulou, passando então para a fase seguinte, “se optei por isso”, “sou mulher”, e acrescenta o seu sentimento em relação a sua apropriação simbólica e representativa do mundo: “me sinto mulher”, mas o sentir mulher ainda é pouco para expressar esse sentir e ser o que de fato demonstra em seu fenótipo, é preciso agregar mais elementos e a entrevistada o faz dizendo: “sempre fui faxineira!”.
“Sempre fui faxineira!” – uma frase inocente, dita para expressar sua profissão? Apenas isso? Ou como no dizer de Lacan – expressando o que não tem lugar na falta de representação? Com certeza é a segunda opção que revela o conteúdo da simples frase “sempre fui faxineira!” – ou seja, “sempre fui mulher”, nasci mulher em corpo de homem, me transformei não naquilo que queria ser: “mulher”, mas naquilo que sou: “mulher”, mulher em corpo de homem, mas mulher, porque quando Débora diz: “sempre fui faxineira!”, ela está dizendo que sempre se viu como mulher, precisou de experiências simbólicas, de relacionar com o mundo, com o universo que a cerca para se materializar enquanto tal, para que o mundo a percebesse, não enquanto discurso, mas enquanto prática.
O que me faz pensar essa relação não é a profissão: faxineira, mas o gênero do substantivo que ela usa, é na palavra a agregada ao final desse substantivo que denota a sua vontade. “Sou faxineira!” Ela não disse: “eu sou faxineiro”. Mas disse, “eu sou faxineir(a)”, uma figura de linguagem que expressa a feminilidade da profissão, o gênero de quem ocupa o lugar, não um homem, não um masculino, mas um feminino, uma mulher.
“Eu era sem ser travesti, eu era gay”. “Aos dezesseis anos passei a me vestir de mulher”. “Sempre fui faxineira!”. “Me sinto mulher”. “Já sou mulher!”. “Se já optei por isso, sou mulher!”. Aqui uma identidade é revelada, revelada também é o processo de como isso foi construído em seu imaginário, partindo de como ela se sentia para o que se tornou. Mas esse tornar não no sentido do desiderato enquanto uma opção dentre outras, não uma escolha, mas um tornar daquilo que já se é, mas que não se revelou.
Também é importante ressaltar que o uso da categoria gênero está relacionado às construções culturais entre os sexos, e essas relações devem ser percebidas de forma relacional, ou seja, o estudo de um dos sexos implica também o estudo do outro. (ZIMMERMANN, 2006, p.145).

Dessa forma o sexo e o gênero são socialmente construídos. As pessoas podem mudar as suas orientações de gênero, assim as identidades e também as aparências das pessoas estão constantemente sendo mudadas (GIDDENS, 2005) e essas mudanças podem ser observadas na entrevista de Débora, e devem servir para uma contribuição aos estudos de gênero nesse terceiro milênio.
A poética é a linguagem multidimensional que leva o olhar do observador não à um caminho sincrônico, mas diacrônico. Permite ver a metamorfose, a transformação não de um sujeito, de um ator, ou autor, mas, sobretudo, de uma parcela da história maior em que essa entrevistada faz parte. Não apenas enquanto protagonista, mas como extensão mesma do palco, da vida, do simbólico, constituindo numa teia, numa rede de saberes e de representações que se esfacelam e se reconstitui continuamente e cotidianamente.
Para terminar esse esboço, essa idéia não concluída, cabe falar somente que esse tipo de representar, porque é sobre isso que falei o texto todo – representação – de como expressamos as falas das entrevistas que usamos em nossas pesquisas? Que valor constitui cada uma delas? Que autoridade delegamos a esse outro? Pois é, isso tem um significado e remodela o nosso olhar sobre o mundo e sobre as experiências humanas.
Em qual saber o terceiro milênio, as novas formas de se fazer a História se constituirão? A periferia será vista e valorizada da própria periferia, enquanto um mundo, um universo que deve ficar onde está sem a interferência do pesquisador cuja ambição é a utopia de mudar o mundo. Acredito nisso, e finalizo esse texto citando mais uma vez Fichte:
Mais que nunca precisamos das vozes daqueles cujo discurso não foi turvado pela tentação de dominar o mundo. Mais que nunca temos que prestar atenção naquele gigantesco cadinho humano da chamada periferia, onde sabedorias e práticas seculares são guardadas onde se ensaiam, sob condições incrivelmente difíceis, estratégias de vida e de sobrevivência que buscam alcançar o futuro [...] Se queremos conhecer o ser humano, então temos que aprender a dirigir o nosso olhar para as distâncias. (FICHTE, Op. Cit. p. 23 e 25).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANDRADE, Maria Antônia A. de. O espaço simbólico como articulação do processo ideológico e do processo representativo. João Pessoa: MC/UFPB, 1995.

BARROS, Manuel de. Livro sobre nada. 1996.

BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas lingüísticas. São Paulo: EDUSP, 1998.

CASALI, Rodrigo. Caderno de anotações das visitas nos terreiros de douradenses. Dourados, 2004/2005. 50p.

DÉBORA. Entrevista concedida pela médium do Ilê de Togoginã. Dourados, 20 abr. 2005.

FICHTE, Hubert. Etnopoesia: antropologia poética das religiões afro-americanas. Tradução Cristina Alberts e Reny Fernandes. São Paulo: Brasiliense, 1987.

GIDDENS, Anthony. Sociologia. Trad. De Sandra Regina Netz. 4.ed. Porto Alegre : Artmed, 2005.

LACAN, Jacques. O seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).Tradução M. D. Magno. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2004. (A obra-prima de cada autor).

ZIMMERMANN, Tânia Regina. “História do gênero: apontamentos teórico-metodológico”. In: DIEHL, Astor Antônio (org). Experiências e ensaios de História: cultura, historiografia e gênero. 1 ed. Passo Fundo: Editora Universidade de Passo Fundo, 2006. p.143-170.
[1] Professor Mestre pela Universidade Federal da Grande Dourados, atualmente leciona no curso de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.
[2] Pseudônimo escolhido pelo Pai-de-Santo do Ilê de Togoginã, cidade de Dourados – MS em entrevista concedida em 20, abr. 2005.

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