segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Parabéns a todos nós

É um bom começo para uma reflexão acerca de um momento importante para a história do desenvolvimento intelectual deste país. Faz apenas um século que oficialmente a escravidão foi extinta, mas o preconceito em relação ao negro, esse ainda continua latente na base de nossa sociedade. É fácil de perceber a mentalidade colonial que reside em nossa sociedade, basta apenas analisarmos a reação das pessoas diante dos atuais acontecimentos que se relacionam com demarcações de terra, sejam elas indígenas ou quilombolas. Todo mundo pergunta: ___ Para quê índio quer terra? Para quê negro quer terra?


Mas ninguém nunca pergunta: ___ Para quê branco quer terra? Para quê latifundiário quer terra?

Todo mundo sempre diz, e a imprensa sempre reproduz, ___ Índio ganha terra e não planta, ta lá nascendo mato! Sem-terra ganha terra e fica reclamando que ela não produz!
Mas ninguém nunca noticiou as quantas terras improdutivas deste país que estão nas mãos dos ‘brancos’, espalhados por este país.


O que eu quero dizer com isso é que nos falta à consciência da alteridade, nos falta a capacidade de nos colocarmos no lugar desse outro, desse próximo, antes de sairmos por aí criticando, acusando, inferiorizando, e ainda mais, reproduzindo as idéias da mesma forma como a recebemos.


Somos produto de três grandes culturas: a européia, a indígena e a africana, o que nos concerne a patamar de um país pluriétnico, multicultural. Se isso por um lado soa como algo legal, por outro, sem uma consciência de respeito e valorização ao diverso, ao diferente, gera preconceitos e violência.


Não podemos imaginar a sociedade brasileira como uma sociedade homogênea, muito pelo contrário, essa mesma composição étnica e cultural garante ricamente a sua diversidade e heterogeneidade.


Desta maneira, o cidadão brasileiro dever ser considerado como índio, negro, branco, cristão, macumbeiro, evangélico, gay, lésbica, transexual etc. Cada grupo aqui formado, aqui constituído deve, pela democracia aqui estabelecida, de ter os seus direitos reconhecidos e respeitados por todo o corpo de cidadãos.


Mas será que isso tem acontecido? Como nos relacionamos com o índio? Com o negro? Com o travesti? Aceitamos o outro sendo ele quem de fato o é? Reconhecemos nele a identidade que ele próprio reconhece em si mesmo? Ou queremos que esse outro seja identificado pelo que eu, pelo que nós o outro, nos identificamos? Respeitamos o outro pelo que ele é? A resposta, todos sabemos.


É, de fato, por causa da falta de alteridade que, um homossexual é morto todos os dias no Brasil. É graças a falta de compreensão que temos em relação ao diferente que o homossexual é ridicularizado na sociedade, estigmatizado, lançado na periferia do sistema, que muitos estão pelas ruas se prostituindo, vivendo em situações nada confortáveis. E vivemos em um país democrático.


O Estado vem de uma maneira lenta, tímida, mas vem tentando assistir aos inúmeros grupos, ONG´s, que batalham, que lutam pela ampliação e/ou o reconhecimento de direitos que antes não existiam.


Mas a sociedade brasileira, sempre responde negativamente a cada uma dessas conquistas. É por isso que não se pode calar, não se pode recuar, e acima de tudo, deve-se dizer claramente o que deve ser dito.


A igreja se coloca contra, afirma categoricamente que a bíblia isso e a bíblia aquilo. Se prendem a uma literatura e com base nela acusam e condenam um outro ser humano, sem lhe dar a chance ou mesmo sem oportunizar a si mesmo um momento de compreensão. Eu me pergunto, se este é o Deus dos cristãos, então eu sou ateu. Por o Deus em quem eu acredito, não exclui, inclui, aceita as diferenças, e na sua compreensão e no seu amor, garante a mim a oportunidade de aprender a ser humano com a minha própria experiência.


Ontem aconteceu a IV Parada Gay de Dourados e hoje ao abrir os jornais - principalmente os digitais - me deparei com reportagens em que as pessoas manifestavam a sua opinião e fiquei muito triste com o que li, porque essas pessoas estavam ali, participaram, mas não conseguiram oportunizar em si mesmas, um único momento de rever seus conceitos.
Ninguém pergunta: ____ O que é importante para você? O que o faz feliz? Quem você é? O que deseja ser?


Oras, estamos falando de pessoas, que habitam um espaço, seja ele geográfico ou imaginário ou social, e que merecem a dignidade de transitar neste espaço com a garantia de sua liberdade e de seus direitos e obrigações tal qual como todo mundo.
Chega Brasil, chega Dourados, basta!


Ou revemos os nossos conceitos sobre o mundo, sobre o moderno, sobre o progresso, sobre o outro, sobre a vida, sobre o meio ambiente... Ou revemos os nossos conceitos sobre as nossas práticas, sobre as nossas escolhas, sobre os nossos governos, ou então, vamos continuar a cometer os mesmos erros que outras tantas sociedades cometeram e que a história está aí para mostrar.


Errar é humano, permanecer no erro é burrice, se continuarmos a agir desta maneira sobre os problemas que nos deparamos diariamente, sinto muito! Estaremos assumindo para o mundo que somos uma nação de burros e ignorantes.
Parabéns a todos nós! A nossa falta de capacidade de perceber o outro, contribui junto a outros tantos fatores para gerar violência, mortes e exclusões. Quem sofre a discriminação, agradece de todo o coração.

2 comentários:

Anónimo disse...

É isso ai, eu tbem concordo, vamos acabar com o preconceito, parabéns pela atitude.

E. disse...

Muito bom seu texto Rodrigo, rapaz, acho que o caminho é este, falar, expor todas as idéias que temos e expor todo o lado ruim da sociedade de forma que isso funcione como um espelho, e que haja reflexão!