Muryatan Santana Barbosa
O interesse atual do público e dos acadêmicos quanto à História da África, dos
africanos e de seus descendentes é um acontecimento promissor na cultura e no
pensamento social brasileiro.
Em relação à História da África, em particular, tal interesse tem ensejado novas
possibilidades de ensino, pesquisa e extensão nos âmbitos acadêmico e pedagógico.
Uma primeira observação necessária a esta história é a compreensão da sua
amplitude. Falar em História da África é falar sobre a história humana. Afinal, foi lá que
surgiu o homo sapiens, cerca de 160 mil anos atrás.
Os verdadeiros “Adão” e “Eva” eram, pois, homens e mulheres africanos, de
faces negroídes. Os mesmos formaram os primeiros núcleos urbanos na Europa
mediterrânica, América, Ásia (Oriente Próximo, Médio, Ásia Central e do Sul) e
Oceania (E. Nascimento, 1996). Inclusive, portanto, no Brasil, como comprova a
descoberta revolucionária do crânio de “Luzia”, em Minas Gerais, em 1975. É um
achado que evidencia haverem as primeiras populações humanas no continente
americano sido não foram grupos mongolóides, mas negroídes. Eram provavelmente
oriundos dos arquipélagos do Pacifico (Neves, 2001).
Também quando se pensa em civilização a África foi pioneira. A importância do
continente no Mundo Antigo é hoje inegável. Sobretudo a partir da ascendência
civilizatória milenar do Egito Faraônico sob as civilizações que beiravam o
Mediterrâneo: persas, assírias, hititas, cretenses, helênica, hebraica e outras. Assim
como influenciou interiormente a África, desde o Alto Nilo e abaixo, entre os núbios e
cuxitas, na época do Império de Kush (aproximadamente 1000-0 a.C.).
Trata-se de uma história de sete mil anos, que formou a base sócio-cultural da
maioria das civilizações humanas na antiguidade. Algo que foi consolidado com a
formação da cultura helenística e a construção da célebre Biblioteca de Alexandria, após
as conquistas de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.).
É difícil resumir a amplitude daquele fenômeno histórico. Ele se refere,
primordialmente, a influencia que a cultura egípcia teve para a expansão das artes, das
1No prelo, revista Entre Livros, Março de 2007.
2
ciências empíricas (matemática, geometria, biologia, astronomia, etc), da filosofia da
natureza e do pensamento religioso (Diop, 1983). Em língua portuguesa, o leitor
encontrará uma introdução a esta vasta história no segundo volume da grandiosa obra
Historia Geral da África, escrito sob coordenação da Unesco.
Após quatro mil anos de história, a civilização egípcia entrou em processo de
decadência que iria culminar com as invasões do último milênio a.C. É uma queda que
enfraqueceu também os seus vizinhos africanos, núbios e cuxitas.
Na virada do último milênio para a nossa Era, a África assiste a outro fenômeno
relevante em sua história: as migrações populacionais para a África Austral subsaariana.
Salvo melhor juízo, foram estas migrações que trouxeram a manipulação do
ferro e do bronze para esta vasta região ao Sul da África. Um saber essencial para a
criação de instrumentos agrícolas mais desenvolvidos, além de armas mais letais. O
historiador Joseph Ki-Zerbo traz esta hipótese no seu conhecido livro História da África
Negra (1979).
Talvez por esta razão, em diversos mitos de origem dos povos da África Austral
e Ocidental se observa a referencia ao grande ancestral comum, geralmente conhecedor
do poder da metalurgia: guerreiro ou agricultor.
Na mesma época vê-se também a ocupação da ilha de Madagascar. Esta
ocupação, todavia, não foi realizada primeiramente pelos africanos, mas pelos
aborígines indonésios, na virada do último milênio. Posteriormente, ela foi também
ocupada por povos nativos africanos, formando uma cultura e população hibrida. Uma
visão introdutória a esta história singular se encontra em Pierre Bertaux: África: desde
la prehistoria hasta los estados actuales (1972).
Outro fato que vem sendo recuperado em relação à África é a história da
civilização de Axum, entre os séculos I e V (d.C.). Tal civilização era localizada no
Nordeste da África, atual Etiópia (leste e norte), Somália, Sudão e Eritréia; fazia divisa
com o Mar Vermelho.
O surgimento de Axum esteve historicamente ligado a sua localização
privilegiada, próxima aos antigos núcleos urbanos cuxumitas, egípcios e árabes. Devido
às trocas culturais que tal proximidade propiciava, a formação étnica e cultural dos
auxumitas tinha um caráter híbrido. Sua população era majoritariamente negroide. Sua
cultura, entretanto, tinha características semitas, embora transformados. Sabe-se da
presença de tradições como a circuncisão e a excisão infantil, além do relativo respeito
ao Sabá e a presença de cantos de origem judaica (Munanga et all).
3
Durante os séculos III à V, a civilização de Axum adquiriu caráter imperial,
impondo submissão aos reinos vizinhos da região Noroeste da África (em particular,
Meroé, antiga capital de Kush) e da Arábia meridional. Essa expansão de Axum
permitiu-lhe assumir o controle de vastas terras cultivadas, até o Mar Vermelho. Por
este poder ocupou posição intermediaria no comércio marítimo do Indico, entre os
Impérios do Oriente (Chineses, Mongóis e Hindus) e o Império Romano, então em
decadência (Munanga, et all). Da Ilha de Moçambique até a costa indiana, estendendose
ao longo do Indico, havia um circuito de centenas de cidades que em diferentes fases
respondiam por grande absorção de trocas com as sociedades africanas.
A partir do século V, quando passa por crise social, a civilização auxumita foi
re-apropriada pelo Reino Etíope. Todavia, sua característica hibrida tradicional foi
abandonada com a adoção do cristianismo, que havia chegado à região por volta do
século IV. Após a decadência de Axum, a história da África, em especial, do Norte e
Nordeste, esteve diretamente ligada à rápida expansão islâmica no continente, a partir
do final do século VII.
A velocidade desta expansão islâmica na África é marcante. Em apenas
cinqüenta anos os muçulmanos (originários ou convertidos) haviam dominado todo o
Norte da África, de Alexandria até Cartago. Entretanto, devido às guerras internas pelo
controle do legado de Maomé, os islâmicos não mantiveram a unidade original. Na
África, ao Norte, três Impérios foram resultado deste conflito inter-islâmico: Fatímida
(X), Almorávidas (XII) e Almoádas (XIII). Uma caracterização destes pode ser
encontrada em Breve historia da África, de Roland Oliver e J. D. Fage.
A importância destes Impérios muçulmanos não está apenas em sua centralidade
na região sob-saariana e egípcia, mas também por sua relevância na área sub-saariana.
Em particular, nos Reinos e Impérios africanos da África Sudanesa (Noroeste), a partir
do século X, como Gana, Mali, Songai, Kanem-Bornu, Iorubás e Hauçás. Na África,
pois, a consolidação do mundo muçulmano favoreceu a consolidação de Estados e
Reinos sudânicos durante a época medieval. Seu papel era primordialmente mercantil.
Tal influência se explica, em grande parte, pelo aumento da escala do mercado
internacional via terrestre ou marítima (Oceano Indico e Pacífico), entre os séculos X e
XIV. Era um comércio em que os europeus tinham papel secundário, diante da
expansão dos Impérios muçulmano, chinês e mongol.
É impossível resumir a riqueza da história desses Reinos e Impérios africanos
desta época em poucas linhas. Geralmente formados antes da chegada dos muçulmanos
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à região, suas riquezas estavam associadas ao comércio com estes, baseado no
fornecimento do marfim, cativos e, sobretudo, ouro. É pelo controle dessa rotas do ouro
na região sub-saariana, que muitos destes Reinos e Impérios foram construídos e
destruídos no período de domínio muçulmano, entre os séculos X e XV.
Além do comércio, tais sociedades viviam da pesca (sobretudo songaís),
agricultura e produção artística. Em especial, os hauçás e iorubás, que eram hábeis
artesões e tintureiros. Uma arte apreciada no Golfo de Benim, na África Ocidental.
A vida urbana estava geralmente associada à capital dos Reinos, com a morada
dos soberanos, a administração e uma praça pública para o comercio. Com exceção dos
hauçás, os camponeses ficavam fora dos núcleos urbanos.
Eram civilizações que possuíam culturas próprias e estruturas distintas, com
ascendência religiosa diferenciada. Possuíam um vasto panteão de divindades
relacionadas às forças da natureza e aos antigos fundadores do Reino. Os iorubás, em
particular, tinham um complexo e sofisticado sistema cultural, baseado na hierarquia e
nas influências recíprocas de suas principais cidades: Ifé, Benin e Oio.
O livro citado de Joseph Ki-Zerbo (1979) é importante fonte de informação
sobre a África Sudanesa à época.
Além desses Impérios e Reinos sudaneses, durante a época medieval a África
viu o surgimento de duas civilizações relevantes na África Central: Império de
Monomotapa e o Reino do Congo.
O Império de Monomotapa ocupava uma vasta área entre o atual Zimbabwe,
África do Sul, Malavi e Moçambique. Sua origem está associada à chegada dos Xonas a
região, que teriam colonizado as populações locais. Do século XII ao XV, construíram
centros urbanos consideráveis, do qual as muralhas de pedras ainda existentes são
provas vivas, em particular a Acrópole e a Muralha do “Grande Zimbabwe”.
Criadores de gado, os monomotapas eram também hábeis comerciantes,
estabelecendo trocas com os muçulmanos e mercadores chineses, pelo porto de Sofala,
controlado pelos primeiros.
A Costa Oriental da África entre os séculos XI e XIX foi um importante centro
de comércio marítimo entre africanos, árabes e chineses. Sabe-se que existiam dezenas
de cidades para este fim nesta Costa, desde Moçambique até a Etiópia. Entre estes,
Quilóa, Pate, Mogadiço e Zanzibar.
Na Costa Oeste da África Central, vê-se também o surgimento do chamado
Reino do Congo durante o século XIV, ocupando uma área entre a atual Angola,
5
Republica Democrática do Congo e Zaire. Tratava-se, em verdade, de uma
confederação de cidades.
O reino do Congo foi um importante núcleo urbano da região. Estima-se que
quando os portugueses chegaram com Diego Cão, em 1482, sua população chegava aos
milhões de habitantes. Possuía uma estrutura política descentralizada, tendo por base as
chefias das aldeias e o soberano, intitulado de Manicongo.
Essa estrutura social foi significativamente alterada com a chegada dos
portugueses. Após a instauração do Regimento de 1512, o Congo se transformou em
poder intermediário de Portugal na Costa Ocidental africana. Foi de lá, em 1532, que os
portugueses enviaram os primeiros africanos escravizados para São Vicente, Brasil.
Durante o século XVI, por interesse dos portugueses, outro poder local, o Reino
de Angola, se constitui como porta de saída para o tráfico. Pela ação destes dois pólos,
veio grande parte dos africanos escravizados para o Brasil durante os séculos XVI, XVII
e XVIII. Eram de origem bantu. Uma ampla comunidade étnica, definida por sua
identidade lingüística e cultural com diversos povos distintos da Costa Leste e Oeste da
África Central.
Após a ação colonizadora dos portugueses, outras nações européias entre os
séculos XVI e XVII construíram fortes ao longo do litoral africano. Sobretudo na
chamada Costa do Ouro (desde então, Costa dos Escravos), Noroeste da África. Eram
principalmente holandeses, ingleses, franceses e espanhóis. Tratava-se de uma luta pelo
acesso à maior riqueza africana: pessoas. Um comércio escravista de alto poder
lucrativo.
Evidentemente, como referido, o tráfico de escravos já existia no continente
antes da chegada dos europeus, no século XV. Segundo estimativas, foi um comércio
que escravizou cerca de cinco milhões de africanos. O número era grandioso, mas não
se aproxima, segundo cálculos atuais, dos cerca de quinze milhões de pessoas
envolvidas no tráfico moderno, desde o século XV.
Ademais, o tráfico ocidental tinha uma alta taxa de mortalidade. Estima-se que
ela tenha sido de 80%. Ou seja, para cada pessoa viva que chegava cativa à colônia,
havia cinco pessoas mortas no processo de escravização (captura, prisão e transporte).
Se tais dados estiverem corretos, se conclui que o tráfico acarretou, pelo menos, em
setenta e cinco milhões de mortos. Trata-se do maior genocídio da história humana.
Dois estudos que tratam do assunto desde uma perspectiva histórica são A escravidão
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na África: uma história de suas transformações (2002), de Paul Lovejoy e De cómo
Europa subdesarolló a África (1982), de Walter Rodney.
O interesse dos europeus, defendido militarmente, desestabilizou a capacidade
dos Reinos africanos para existirem como centros de organização social. Desde então,
sua existência estava relacionada à sua funcionalidade como poder intermediário no
trafico escravista. Em particular, na captura de novos escravos e na destruição dos
povos e sociedades que se opunham a tal situação. Surgidos durante os séculos XVII e
XVIII, os Reinos de Abomé e Ashanti tiveram papel fundamental para a difusão e o
aumento da escala do trafico de escravos na Costa dos Escravos.
Como parte da acumulação primitiva, o tráfico de escravos foi essencial para o
desenvolvimento industrial do capitalismo. Não por acaso, muitos dos industriais
ingleses eram ligados ao tráfico escravista; diretamente, como escravagistas, ou
indiretamente, como sócios e acionistas das companhias comerciais.
Por outro lado, com o tráfico, a diáspora africana levou à formação dos povos
afro-americanos, resultantes de sua integração forçada como mão de obra escrava.
Desde então, vê-se o surgimento do povo afro-brasileiro, afro-estadunidense, etc.,
enquanto sínteses locais da população negra (africanos e seus descendentes). Tratam-se,
pois, de fusões e sínteses singulares deste vasto e complexo universo cultural das etnias
africanas.
Ao longo do século XIX, depois da proibição gradativa do tráfico escravista, a
África passou por um período de “descoberta” por parte das nações européias. Foi uma
época em que os missionários e expedicionários tiveram papel fundamental na sujeição
e no recolhimento de informações sobre o interior do continente, praticamente
desconhecido pelos europeus até a virada dos séculos XIX e XX.
Em busca de mão de obra barata, novos territórios e matérias-primas para o
desenvolvimento de suas industrias, os europeus “retornam” a África na segunda
metade do século XIX. O ápice desta nova corrida à África foi a Conferência de Berlim,
em 1884-85. Reunindo os principais países europeus à época, a Conferência de Berlim
traçou os limites territoriais que formavam a maioria das nações africanas atuais. Foi
uma demarcação sem nenhum respeito às fronteiras naturais e sociais que marcavam os
diferentes povos africanos.
Após esta Conferência é que de fato fala-se na Era Colonial da história da
África. Entre 1885-1914, os europeus se apoderaram de 9/10 do território africano. Foi
um período em que tiveram papel central seis países europeus, detentores da maior parte
7
das novas colônias no continente: Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Itália e
Alemanha. Em particular, os dois primeiros citados.
Os primeiros decênios do século XX marcaram uma transformação dos planos
coloniais para a África. Inicialmente, com o apoio de alguns intelectuais europeus
progressistas, como Pablo Picasso, se inicia uma reação anti-racista contra o
colonialismo. Para estes, a “primitividade” da África representaria uma visão de mundo
alternativa. Quiçá, uma fonte de criatividade e originalidade perdidas pela expansão da
racionalidade instrumental no Ocidente. O pessimismo europeu quanto à Primeira
Guerra Mundial contribuiu para nova onda de relativização, quanto ao papel do
Ocidente, nos meios intelectuais.
Por outro lado, vê-se o surgimento dos intelectuais africanos e seus descendentes
na diáspora, que começam a sentir-se co-partícipes da mesma comunidade de interesses,
na luta contra o racismo e o colonialismo. Desde W. E. Du Bois, “Pai” do Panafricanismo,
são vários os termos para se referir a esta unidade: raça, etnia, povo,
espírito, comunidade, etc. O importante foi sua percepção da luta comum dentro de um
universo simbólico contemporâneo. É o que Paul Gilroy intitula modernidade negra em
sua obra, Atlântico negro: modernidade e dupla consciência (2001).
Motivado por estes dois movimentos anti-racistas, e, pelo desencadeamento das
Grandes Guerras Mundiais, a organização africana contra o colonialismo tem um salto
qualitativo no entre-guerras. Neste contexto, teve papel fundamental à intelectualidade
africana formada nas Igrejas, escolas e faculdades da própria Metrópole, na África ou
no estrangeiro. Esse foi o caso de vários lideres dos movimentos de descolonização, a
partir da década de 1940, como, Seke Touré, Kwame N´Krumah, Frantz Fanon, Jomo
Kenyatta, Julius Nyerere, Agostinho Neto, Patrice Lumumba e outros. São pensadores e
atividades infelizmente ainda pouco conhecidos do público brasileiro.
Na África, os movimentos de descolonização duraram todo o século XX. Seu
objetivo primeiro foi finalmente alcançado: a independência nacional. Muitas foram às
formas e tendências de tal fenômeno. Desde a negociação pacífica até as revoluções
armadas.
Restam, entretanto, inúmeros problemas as jovens nações africanas. Tais
problemas não são tão diferentes do que o de outros países subdesenvolvidos, apenas
mais agravados: economia estagnada, miséria social, corrupção política, cultura
colonizada, etc.
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Grande parte desses problemas atuais na África estão relacionados ao fato de
que suas antigas nações, de origem étnica, haverem sido aleatoriamente divididas
conforme os interesses das metrópoles nas colônias, na Conferencia de Berlim. Tal fato
fez com que em um mesmo país, desenhado como colônia, se tenham diferentes etnias,
por vezes, historicamente inimigas.
Além disto, muitas destas divisões étnicas pré-coloniais foram
instrumentalizadas pelos colonizadores para a manutenção de sua dominação. Trata-se
da famosa tática “dividir para dominar”. Essa foi uma política amplamente utilizada na
época colonial, ajudando a transformar a questão étnica na África em um fator de
divisão política.
A tática “dividir para dominar” foi especialmente utilizada nas regiões em que o
numero de colonizadores era proporcionalmente muito pequeno em relação aos
colonizados. Neste caso, os colonialistas se aproveitaram das divisões étnicas nativas,
ou mesmo incentivaram sua recriação, de duas formas correlatas: a) favorecendo um
grupo étnico em particular; b) favorecendo ora um, ora outros grupos étnicos.
No primeiro caso tem-se, por exemplo, a administração colonial inglesa no
Quênia, Gana e África do Sul. Neste último, temerosos da unidade zulu, cuja história é
centenária, os colonizadores favoreceram o sentimento de unidade das demais
comunidades étnicas. Essa rivalidade inter-étnica perdurou ao longo do século XX,
prejudicando a união contra o apartheid naquele país.
Assim ocorreu também durante a ascensão dos movimentos de descolonização,
quando os colonialistas incentivaram a rivalidade étnica contra grupos mais ativos nas
lutas de libertação. Este é o caso, por exemplo, da colonização portuguesa na Guiné-
Bissau, na década de 1950. Com o intuito de minar o avanço das forças revolucionárias
do Partido Africano de Independência de Guine e Cabo Verde (cujo líder foi Amical
Cabral), os portugueses recorreram à luta contra os balantes, majoritariamente
favoráveis à independência.
No segundo caso da tática “dividir para dominar”, poder-se-ia citar os graves
conflitos entre tutsis e hutus, em Ruanda e Burundi. Historicamente, tsutis e hutus
formavam duas nações na bacia do rio Congo, desde o século XV. Durante o entreguerras,
os colonizadores belgas, pouco numerosos na região, se utilizaram desta tática
para reforçar intrigas inter-étnicas, favorecendo ora tutsis ora hutus. Após a conquista da
independência, tais intrigas se transformaram em conflitos étnicos generalizados,
levando os países a uma guerra civil intermitente, que perdura por décadas.
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Por outro lado, embora os movimentos de descolonização fossem em sua
maioria de caráter nacionalista, em algumas regiões da África, a resistência ao
colonialismo também possuía uma identidade étnica de base, que foi utilizada como
fator político.
Um exemplo disso foi a Revolta dos Mau-Mau, no Quênia, na década de 1950.
Os mau-mau faziam parte do grupo kikuyu, do líder pan-africanista Jomo Kenyatta.
Desde 1950, eles se organizaram como um grupo clandestino, praticando ações
violentas contra os colonizadores ou contra aqueles que eram vistos como seus
auxiliares. Sua unidade era basicamente étnica, assentada sob uma série de rituais e
sacrifícios que uniam os membros do grupo. Foi uma atuação que, embora
temporariamente derrotada, abriu caminho para a descolonização do Quênia.
Utilizada como forma de resistência ao colonialismo, mas, sobretudo, como
forma de dominação colonial, a identidade étnica, re-significada, se tornou, portanto,
um fator político relevante para os africanos.
Na época da Guerra Fria, a etnia voltou a ser utilizada na luta política. Em
particular, pelos E.U.A., que defendiam avidamente seus interesses econômicos e geopolíticos
no continente.
Por exemplo, quando os ibos se libertaram da Nigéria, em 1967, criando a
Republica de Biafra, os EUA e a Grã-Bretanha, interessados na manutenção das elites
hauçás do governo nigeriano, sua aliada na Africa Ocidental, patrocinou uma guerra
civil que se estendeu até 1970, quando os ibos se renderam e o território foi
reincorporado à Nigéria. Estima-se que morreram então algo em torno de dois milhões
de pessoas na guerra civil, em sua maioria ibos.
Alguns dos conflitos étnicos citados, e outros da mesma época, contribuíram
decisivamente para a instrumentalização da questão étnica como força política na África
contemporânea.
Entretanto, hoje, a expansão e diversidade com que tais conflitos étnicos vêm
ocorrendo não se explicam, em grande parte, por esta genealogia histórica. Antes pelas
disputas políticas e econômicas atualmente existentes. Algo que apenas indiretamente se
relaciona com a existência do colonialismo, das lutas pela descolonização ou a Guerra
Fria.
Na contemporaneidade, as disputas étnicas na África escondem outros
interesses, talvez mais escusos.
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Em primeiro lugar, responde ao desejo mórbido de certas milícias se
perpetuarem no poder local, mesmo que instaurando uma guerra infinita. Este é o caso
dos chamados “Senhoras de Guerra”, que pululam na África atual. Foram agraciados
com a expansão do tráfico internacional de armas, após o fim da Guerra Fria.
Nestes casos, as lutas se prolongam, principalmente, pelo controle das regiões
ricas em minerais ou matérias-primas, sobretudo diamantes, ouro e petróleo.
Veja-se, por exemplo, a Somália atual, que após a queda do presidente Siad
Barre, em 1991, vive fragmentada em estado de guerra civil intermitente, que já matou
dezenas de milhares. Também em Serra Leoa, na década de 1990, explodiu uma guerra
civil promovida por miliciais iguamente bárbaras, motivadas pelo controle da extração
de diamante, contrabandeado para o exterior. Estima-se cinqüenta mil mortos e
trezentos mil refugiados.
Em segundo lugar, tais conflitos aparentemente étnicos respondem hoje a
interesses econômicos de multinacionais e elites governamentais corruptas, preocupados
na manutenção de mercados e/ou concessões ilegais para as indústrias européias e
estadunidenses: farmacêuticas, mineradoras, entretenimento turístico, etc. Esse é o papel
que cabe, por exemplo, as indústrias madeireiras, como financiadoras dos conflitos
“étnicos” da década de 1990, que levam a desconstrução nacional e crise social da
Libéria e do Congo-Kinshasa.
Em verdade, pois, o crescimento atual do fator étnico na política revela, na
África, a decomposição do poder nacional como forma de auto-governo.
Neste sentido, a analise histórica dos conflitos étnicos na África, durante o
século XX, revela diversificada instrumentalização e re-significação da identidade
“étnica” como força política. O mesmo fenômeno pode ser encontrado em outros
lugares, desde outras motivações aparentes, em especial, conflitos religiosos.
Neste quesito, pois, a história da África não é tão diferente da história universal.
11
Bibliografia
BARBOSA, Wilson N. Cultura negra e dominação. Coleção Aldus, no. 9. São
Leopoldo, RS, Brasil: Editora UNISINOS, 2002.
DIOP, Cheikh A. A origem dos egípcios. In: MOKHTAR, G. História geral da África:
a África antiga. São Paulo: Ática/UNESCO, 1980.
KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. Portugal: Publicações Europa-América,
vol. 1 e 2, 1979.
MUNANGA, K., MOURA, C. & PEREIRA, R. Historia e culturas ilustradas da África
e sua diáspora brasileira (mimeo). São Paulo: Ministério da Cultura, s./d.
NASCIMENTO, Elisa. L. As civilizações africanas no Mundo Antigo. In: Thot: escriba
dos deuses. Brasília: Gabinete do Senador Abdias Nascimento, no.3 (1997), pp. 223-48.
NEVES, Walter. Africanos vieram antes. Pesquisa Fapesp, n. 66, p. 50-53, jul. 2001.
OLIVER, Roland & FAGE, J. D. Breve histórica da África. Lisboa: Livraria Sá da
Costa, 1980.Muryatan Santana
africanos e de seus descendentes é um acontecimento promissor na cultura e no
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Em relação à História da África, em particular, tal interesse tem ensejado novas
possibilidades de ensino, pesquisa e extensão nos âmbitos acadêmico e pedagógico.
Uma primeira observação necessária a esta história é a compreensão da sua
amplitude. Falar em História da África é falar sobre a história humana. Afinal, foi lá que
surgiu o homo sapiens, cerca de 160 mil anos atrás.
Os verdadeiros “Adão” e “Eva” eram, pois, homens e mulheres africanos, de
faces negroídes. Os mesmos formaram os primeiros núcleos urbanos na Europa
mediterrânica, América, Ásia (Oriente Próximo, Médio, Ásia Central e do Sul) e
Oceania (E. Nascimento, 1996). Inclusive, portanto, no Brasil, como comprova a
descoberta revolucionária do crânio de “Luzia”, em Minas Gerais, em 1975. É um
achado que evidencia haverem as primeiras populações humanas no continente
americano sido não foram grupos mongolóides, mas negroídes. Eram provavelmente
oriundos dos arquipélagos do Pacifico (Neves, 2001).
Também quando se pensa em civilização a África foi pioneira. A importância do
continente no Mundo Antigo é hoje inegável. Sobretudo a partir da ascendência
civilizatória milenar do Egito Faraônico sob as civilizações que beiravam o
Mediterrâneo: persas, assírias, hititas, cretenses, helênica, hebraica e outras. Assim
como influenciou interiormente a África, desde o Alto Nilo e abaixo, entre os núbios e
cuxitas, na época do Império de Kush (aproximadamente 1000-0 a.C.).
Trata-se de uma história de sete mil anos, que formou a base sócio-cultural da
maioria das civilizações humanas na antiguidade. Algo que foi consolidado com a
formação da cultura helenística e a construção da célebre Biblioteca de Alexandria, após
as conquistas de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.).
É difícil resumir a amplitude daquele fenômeno histórico. Ele se refere,
primordialmente, a influencia que a cultura egípcia teve para a expansão das artes, das
1No prelo, revista Entre Livros, Março de 2007.
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ciências empíricas (matemática, geometria, biologia, astronomia, etc), da filosofia da
natureza e do pensamento religioso (Diop, 1983). Em língua portuguesa, o leitor
encontrará uma introdução a esta vasta história no segundo volume da grandiosa obra
Historia Geral da África, escrito sob coordenação da Unesco.
Após quatro mil anos de história, a civilização egípcia entrou em processo de
decadência que iria culminar com as invasões do último milênio a.C. É uma queda que
enfraqueceu também os seus vizinhos africanos, núbios e cuxitas.
Na virada do último milênio para a nossa Era, a África assiste a outro fenômeno
relevante em sua história: as migrações populacionais para a África Austral subsaariana.
Salvo melhor juízo, foram estas migrações que trouxeram a manipulação do
ferro e do bronze para esta vasta região ao Sul da África. Um saber essencial para a
criação de instrumentos agrícolas mais desenvolvidos, além de armas mais letais. O
historiador Joseph Ki-Zerbo traz esta hipótese no seu conhecido livro História da África
Negra (1979).
Talvez por esta razão, em diversos mitos de origem dos povos da África Austral
e Ocidental se observa a referencia ao grande ancestral comum, geralmente conhecedor
do poder da metalurgia: guerreiro ou agricultor.
Na mesma época vê-se também a ocupação da ilha de Madagascar. Esta
ocupação, todavia, não foi realizada primeiramente pelos africanos, mas pelos
aborígines indonésios, na virada do último milênio. Posteriormente, ela foi também
ocupada por povos nativos africanos, formando uma cultura e população hibrida. Uma
visão introdutória a esta história singular se encontra em Pierre Bertaux: África: desde
la prehistoria hasta los estados actuales (1972).
Outro fato que vem sendo recuperado em relação à África é a história da
civilização de Axum, entre os séculos I e V (d.C.). Tal civilização era localizada no
Nordeste da África, atual Etiópia (leste e norte), Somália, Sudão e Eritréia; fazia divisa
com o Mar Vermelho.
O surgimento de Axum esteve historicamente ligado a sua localização
privilegiada, próxima aos antigos núcleos urbanos cuxumitas, egípcios e árabes. Devido
às trocas culturais que tal proximidade propiciava, a formação étnica e cultural dos
auxumitas tinha um caráter híbrido. Sua população era majoritariamente negroide. Sua
cultura, entretanto, tinha características semitas, embora transformados. Sabe-se da
presença de tradições como a circuncisão e a excisão infantil, além do relativo respeito
ao Sabá e a presença de cantos de origem judaica (Munanga et all).
3
Durante os séculos III à V, a civilização de Axum adquiriu caráter imperial,
impondo submissão aos reinos vizinhos da região Noroeste da África (em particular,
Meroé, antiga capital de Kush) e da Arábia meridional. Essa expansão de Axum
permitiu-lhe assumir o controle de vastas terras cultivadas, até o Mar Vermelho. Por
este poder ocupou posição intermediaria no comércio marítimo do Indico, entre os
Impérios do Oriente (Chineses, Mongóis e Hindus) e o Império Romano, então em
decadência (Munanga, et all). Da Ilha de Moçambique até a costa indiana, estendendose
ao longo do Indico, havia um circuito de centenas de cidades que em diferentes fases
respondiam por grande absorção de trocas com as sociedades africanas.
A partir do século V, quando passa por crise social, a civilização auxumita foi
re-apropriada pelo Reino Etíope. Todavia, sua característica hibrida tradicional foi
abandonada com a adoção do cristianismo, que havia chegado à região por volta do
século IV. Após a decadência de Axum, a história da África, em especial, do Norte e
Nordeste, esteve diretamente ligada à rápida expansão islâmica no continente, a partir
do final do século VII.
A velocidade desta expansão islâmica na África é marcante. Em apenas
cinqüenta anos os muçulmanos (originários ou convertidos) haviam dominado todo o
Norte da África, de Alexandria até Cartago. Entretanto, devido às guerras internas pelo
controle do legado de Maomé, os islâmicos não mantiveram a unidade original. Na
África, ao Norte, três Impérios foram resultado deste conflito inter-islâmico: Fatímida
(X), Almorávidas (XII) e Almoádas (XIII). Uma caracterização destes pode ser
encontrada em Breve historia da África, de Roland Oliver e J. D. Fage.
A importância destes Impérios muçulmanos não está apenas em sua centralidade
na região sob-saariana e egípcia, mas também por sua relevância na área sub-saariana.
Em particular, nos Reinos e Impérios africanos da África Sudanesa (Noroeste), a partir
do século X, como Gana, Mali, Songai, Kanem-Bornu, Iorubás e Hauçás. Na África,
pois, a consolidação do mundo muçulmano favoreceu a consolidação de Estados e
Reinos sudânicos durante a época medieval. Seu papel era primordialmente mercantil.
Tal influência se explica, em grande parte, pelo aumento da escala do mercado
internacional via terrestre ou marítima (Oceano Indico e Pacífico), entre os séculos X e
XIV. Era um comércio em que os europeus tinham papel secundário, diante da
expansão dos Impérios muçulmano, chinês e mongol.
É impossível resumir a riqueza da história desses Reinos e Impérios africanos
desta época em poucas linhas. Geralmente formados antes da chegada dos muçulmanos
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à região, suas riquezas estavam associadas ao comércio com estes, baseado no
fornecimento do marfim, cativos e, sobretudo, ouro. É pelo controle dessa rotas do ouro
na região sub-saariana, que muitos destes Reinos e Impérios foram construídos e
destruídos no período de domínio muçulmano, entre os séculos X e XV.
Além do comércio, tais sociedades viviam da pesca (sobretudo songaís),
agricultura e produção artística. Em especial, os hauçás e iorubás, que eram hábeis
artesões e tintureiros. Uma arte apreciada no Golfo de Benim, na África Ocidental.
A vida urbana estava geralmente associada à capital dos Reinos, com a morada
dos soberanos, a administração e uma praça pública para o comercio. Com exceção dos
hauçás, os camponeses ficavam fora dos núcleos urbanos.
Eram civilizações que possuíam culturas próprias e estruturas distintas, com
ascendência religiosa diferenciada. Possuíam um vasto panteão de divindades
relacionadas às forças da natureza e aos antigos fundadores do Reino. Os iorubás, em
particular, tinham um complexo e sofisticado sistema cultural, baseado na hierarquia e
nas influências recíprocas de suas principais cidades: Ifé, Benin e Oio.
O livro citado de Joseph Ki-Zerbo (1979) é importante fonte de informação
sobre a África Sudanesa à época.
Além desses Impérios e Reinos sudaneses, durante a época medieval a África
viu o surgimento de duas civilizações relevantes na África Central: Império de
Monomotapa e o Reino do Congo.
O Império de Monomotapa ocupava uma vasta área entre o atual Zimbabwe,
África do Sul, Malavi e Moçambique. Sua origem está associada à chegada dos Xonas a
região, que teriam colonizado as populações locais. Do século XII ao XV, construíram
centros urbanos consideráveis, do qual as muralhas de pedras ainda existentes são
provas vivas, em particular a Acrópole e a Muralha do “Grande Zimbabwe”.
Criadores de gado, os monomotapas eram também hábeis comerciantes,
estabelecendo trocas com os muçulmanos e mercadores chineses, pelo porto de Sofala,
controlado pelos primeiros.
A Costa Oriental da África entre os séculos XI e XIX foi um importante centro
de comércio marítimo entre africanos, árabes e chineses. Sabe-se que existiam dezenas
de cidades para este fim nesta Costa, desde Moçambique até a Etiópia. Entre estes,
Quilóa, Pate, Mogadiço e Zanzibar.
Na Costa Oeste da África Central, vê-se também o surgimento do chamado
Reino do Congo durante o século XIV, ocupando uma área entre a atual Angola,
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Republica Democrática do Congo e Zaire. Tratava-se, em verdade, de uma
confederação de cidades.
O reino do Congo foi um importante núcleo urbano da região. Estima-se que
quando os portugueses chegaram com Diego Cão, em 1482, sua população chegava aos
milhões de habitantes. Possuía uma estrutura política descentralizada, tendo por base as
chefias das aldeias e o soberano, intitulado de Manicongo.
Essa estrutura social foi significativamente alterada com a chegada dos
portugueses. Após a instauração do Regimento de 1512, o Congo se transformou em
poder intermediário de Portugal na Costa Ocidental africana. Foi de lá, em 1532, que os
portugueses enviaram os primeiros africanos escravizados para São Vicente, Brasil.
Durante o século XVI, por interesse dos portugueses, outro poder local, o Reino
de Angola, se constitui como porta de saída para o tráfico. Pela ação destes dois pólos,
veio grande parte dos africanos escravizados para o Brasil durante os séculos XVI, XVII
e XVIII. Eram de origem bantu. Uma ampla comunidade étnica, definida por sua
identidade lingüística e cultural com diversos povos distintos da Costa Leste e Oeste da
África Central.
Após a ação colonizadora dos portugueses, outras nações européias entre os
séculos XVI e XVII construíram fortes ao longo do litoral africano. Sobretudo na
chamada Costa do Ouro (desde então, Costa dos Escravos), Noroeste da África. Eram
principalmente holandeses, ingleses, franceses e espanhóis. Tratava-se de uma luta pelo
acesso à maior riqueza africana: pessoas. Um comércio escravista de alto poder
lucrativo.
Evidentemente, como referido, o tráfico de escravos já existia no continente
antes da chegada dos europeus, no século XV. Segundo estimativas, foi um comércio
que escravizou cerca de cinco milhões de africanos. O número era grandioso, mas não
se aproxima, segundo cálculos atuais, dos cerca de quinze milhões de pessoas
envolvidas no tráfico moderno, desde o século XV.
Ademais, o tráfico ocidental tinha uma alta taxa de mortalidade. Estima-se que
ela tenha sido de 80%. Ou seja, para cada pessoa viva que chegava cativa à colônia,
havia cinco pessoas mortas no processo de escravização (captura, prisão e transporte).
Se tais dados estiverem corretos, se conclui que o tráfico acarretou, pelo menos, em
setenta e cinco milhões de mortos. Trata-se do maior genocídio da história humana.
Dois estudos que tratam do assunto desde uma perspectiva histórica são A escravidão
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na África: uma história de suas transformações (2002), de Paul Lovejoy e De cómo
Europa subdesarolló a África (1982), de Walter Rodney.
O interesse dos europeus, defendido militarmente, desestabilizou a capacidade
dos Reinos africanos para existirem como centros de organização social. Desde então,
sua existência estava relacionada à sua funcionalidade como poder intermediário no
trafico escravista. Em particular, na captura de novos escravos e na destruição dos
povos e sociedades que se opunham a tal situação. Surgidos durante os séculos XVII e
XVIII, os Reinos de Abomé e Ashanti tiveram papel fundamental para a difusão e o
aumento da escala do trafico de escravos na Costa dos Escravos.
Como parte da acumulação primitiva, o tráfico de escravos foi essencial para o
desenvolvimento industrial do capitalismo. Não por acaso, muitos dos industriais
ingleses eram ligados ao tráfico escravista; diretamente, como escravagistas, ou
indiretamente, como sócios e acionistas das companhias comerciais.
Por outro lado, com o tráfico, a diáspora africana levou à formação dos povos
afro-americanos, resultantes de sua integração forçada como mão de obra escrava.
Desde então, vê-se o surgimento do povo afro-brasileiro, afro-estadunidense, etc.,
enquanto sínteses locais da população negra (africanos e seus descendentes). Tratam-se,
pois, de fusões e sínteses singulares deste vasto e complexo universo cultural das etnias
africanas.
Ao longo do século XIX, depois da proibição gradativa do tráfico escravista, a
África passou por um período de “descoberta” por parte das nações européias. Foi uma
época em que os missionários e expedicionários tiveram papel fundamental na sujeição
e no recolhimento de informações sobre o interior do continente, praticamente
desconhecido pelos europeus até a virada dos séculos XIX e XX.
Em busca de mão de obra barata, novos territórios e matérias-primas para o
desenvolvimento de suas industrias, os europeus “retornam” a África na segunda
metade do século XIX. O ápice desta nova corrida à África foi a Conferência de Berlim,
em 1884-85. Reunindo os principais países europeus à época, a Conferência de Berlim
traçou os limites territoriais que formavam a maioria das nações africanas atuais. Foi
uma demarcação sem nenhum respeito às fronteiras naturais e sociais que marcavam os
diferentes povos africanos.
Após esta Conferência é que de fato fala-se na Era Colonial da história da
África. Entre 1885-1914, os europeus se apoderaram de 9/10 do território africano. Foi
um período em que tiveram papel central seis países europeus, detentores da maior parte
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das novas colônias no continente: Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Itália e
Alemanha. Em particular, os dois primeiros citados.
Os primeiros decênios do século XX marcaram uma transformação dos planos
coloniais para a África. Inicialmente, com o apoio de alguns intelectuais europeus
progressistas, como Pablo Picasso, se inicia uma reação anti-racista contra o
colonialismo. Para estes, a “primitividade” da África representaria uma visão de mundo
alternativa. Quiçá, uma fonte de criatividade e originalidade perdidas pela expansão da
racionalidade instrumental no Ocidente. O pessimismo europeu quanto à Primeira
Guerra Mundial contribuiu para nova onda de relativização, quanto ao papel do
Ocidente, nos meios intelectuais.
Por outro lado, vê-se o surgimento dos intelectuais africanos e seus descendentes
na diáspora, que começam a sentir-se co-partícipes da mesma comunidade de interesses,
na luta contra o racismo e o colonialismo. Desde W. E. Du Bois, “Pai” do Panafricanismo,
são vários os termos para se referir a esta unidade: raça, etnia, povo,
espírito, comunidade, etc. O importante foi sua percepção da luta comum dentro de um
universo simbólico contemporâneo. É o que Paul Gilroy intitula modernidade negra em
sua obra, Atlântico negro: modernidade e dupla consciência (2001).
Motivado por estes dois movimentos anti-racistas, e, pelo desencadeamento das
Grandes Guerras Mundiais, a organização africana contra o colonialismo tem um salto
qualitativo no entre-guerras. Neste contexto, teve papel fundamental à intelectualidade
africana formada nas Igrejas, escolas e faculdades da própria Metrópole, na África ou
no estrangeiro. Esse foi o caso de vários lideres dos movimentos de descolonização, a
partir da década de 1940, como, Seke Touré, Kwame N´Krumah, Frantz Fanon, Jomo
Kenyatta, Julius Nyerere, Agostinho Neto, Patrice Lumumba e outros. São pensadores e
atividades infelizmente ainda pouco conhecidos do público brasileiro.
Na África, os movimentos de descolonização duraram todo o século XX. Seu
objetivo primeiro foi finalmente alcançado: a independência nacional. Muitas foram às
formas e tendências de tal fenômeno. Desde a negociação pacífica até as revoluções
armadas.
Restam, entretanto, inúmeros problemas as jovens nações africanas. Tais
problemas não são tão diferentes do que o de outros países subdesenvolvidos, apenas
mais agravados: economia estagnada, miséria social, corrupção política, cultura
colonizada, etc.
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Grande parte desses problemas atuais na África estão relacionados ao fato de
que suas antigas nações, de origem étnica, haverem sido aleatoriamente divididas
conforme os interesses das metrópoles nas colônias, na Conferencia de Berlim. Tal fato
fez com que em um mesmo país, desenhado como colônia, se tenham diferentes etnias,
por vezes, historicamente inimigas.
Além disto, muitas destas divisões étnicas pré-coloniais foram
instrumentalizadas pelos colonizadores para a manutenção de sua dominação. Trata-se
da famosa tática “dividir para dominar”. Essa foi uma política amplamente utilizada na
época colonial, ajudando a transformar a questão étnica na África em um fator de
divisão política.
A tática “dividir para dominar” foi especialmente utilizada nas regiões em que o
numero de colonizadores era proporcionalmente muito pequeno em relação aos
colonizados. Neste caso, os colonialistas se aproveitaram das divisões étnicas nativas,
ou mesmo incentivaram sua recriação, de duas formas correlatas: a) favorecendo um
grupo étnico em particular; b) favorecendo ora um, ora outros grupos étnicos.
No primeiro caso tem-se, por exemplo, a administração colonial inglesa no
Quênia, Gana e África do Sul. Neste último, temerosos da unidade zulu, cuja história é
centenária, os colonizadores favoreceram o sentimento de unidade das demais
comunidades étnicas. Essa rivalidade inter-étnica perdurou ao longo do século XX,
prejudicando a união contra o apartheid naquele país.
Assim ocorreu também durante a ascensão dos movimentos de descolonização,
quando os colonialistas incentivaram a rivalidade étnica contra grupos mais ativos nas
lutas de libertação. Este é o caso, por exemplo, da colonização portuguesa na Guiné-
Bissau, na década de 1950. Com o intuito de minar o avanço das forças revolucionárias
do Partido Africano de Independência de Guine e Cabo Verde (cujo líder foi Amical
Cabral), os portugueses recorreram à luta contra os balantes, majoritariamente
favoráveis à independência.
No segundo caso da tática “dividir para dominar”, poder-se-ia citar os graves
conflitos entre tutsis e hutus, em Ruanda e Burundi. Historicamente, tsutis e hutus
formavam duas nações na bacia do rio Congo, desde o século XV. Durante o entreguerras,
os colonizadores belgas, pouco numerosos na região, se utilizaram desta tática
para reforçar intrigas inter-étnicas, favorecendo ora tutsis ora hutus. Após a conquista da
independência, tais intrigas se transformaram em conflitos étnicos generalizados,
levando os países a uma guerra civil intermitente, que perdura por décadas.
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Por outro lado, embora os movimentos de descolonização fossem em sua
maioria de caráter nacionalista, em algumas regiões da África, a resistência ao
colonialismo também possuía uma identidade étnica de base, que foi utilizada como
fator político.
Um exemplo disso foi a Revolta dos Mau-Mau, no Quênia, na década de 1950.
Os mau-mau faziam parte do grupo kikuyu, do líder pan-africanista Jomo Kenyatta.
Desde 1950, eles se organizaram como um grupo clandestino, praticando ações
violentas contra os colonizadores ou contra aqueles que eram vistos como seus
auxiliares. Sua unidade era basicamente étnica, assentada sob uma série de rituais e
sacrifícios que uniam os membros do grupo. Foi uma atuação que, embora
temporariamente derrotada, abriu caminho para a descolonização do Quênia.
Utilizada como forma de resistência ao colonialismo, mas, sobretudo, como
forma de dominação colonial, a identidade étnica, re-significada, se tornou, portanto,
um fator político relevante para os africanos.
Na época da Guerra Fria, a etnia voltou a ser utilizada na luta política. Em
particular, pelos E.U.A., que defendiam avidamente seus interesses econômicos e geopolíticos
no continente.
Por exemplo, quando os ibos se libertaram da Nigéria, em 1967, criando a
Republica de Biafra, os EUA e a Grã-Bretanha, interessados na manutenção das elites
hauçás do governo nigeriano, sua aliada na Africa Ocidental, patrocinou uma guerra
civil que se estendeu até 1970, quando os ibos se renderam e o território foi
reincorporado à Nigéria. Estima-se que morreram então algo em torno de dois milhões
de pessoas na guerra civil, em sua maioria ibos.
Alguns dos conflitos étnicos citados, e outros da mesma época, contribuíram
decisivamente para a instrumentalização da questão étnica como força política na África
contemporânea.
Entretanto, hoje, a expansão e diversidade com que tais conflitos étnicos vêm
ocorrendo não se explicam, em grande parte, por esta genealogia histórica. Antes pelas
disputas políticas e econômicas atualmente existentes. Algo que apenas indiretamente se
relaciona com a existência do colonialismo, das lutas pela descolonização ou a Guerra
Fria.
Na contemporaneidade, as disputas étnicas na África escondem outros
interesses, talvez mais escusos.
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Em primeiro lugar, responde ao desejo mórbido de certas milícias se
perpetuarem no poder local, mesmo que instaurando uma guerra infinita. Este é o caso
dos chamados “Senhoras de Guerra”, que pululam na África atual. Foram agraciados
com a expansão do tráfico internacional de armas, após o fim da Guerra Fria.
Nestes casos, as lutas se prolongam, principalmente, pelo controle das regiões
ricas em minerais ou matérias-primas, sobretudo diamantes, ouro e petróleo.
Veja-se, por exemplo, a Somália atual, que após a queda do presidente Siad
Barre, em 1991, vive fragmentada em estado de guerra civil intermitente, que já matou
dezenas de milhares. Também em Serra Leoa, na década de 1990, explodiu uma guerra
civil promovida por miliciais iguamente bárbaras, motivadas pelo controle da extração
de diamante, contrabandeado para o exterior. Estima-se cinqüenta mil mortos e
trezentos mil refugiados.
Em segundo lugar, tais conflitos aparentemente étnicos respondem hoje a
interesses econômicos de multinacionais e elites governamentais corruptas, preocupados
na manutenção de mercados e/ou concessões ilegais para as indústrias européias e
estadunidenses: farmacêuticas, mineradoras, entretenimento turístico, etc. Esse é o papel
que cabe, por exemplo, as indústrias madeireiras, como financiadoras dos conflitos
“étnicos” da década de 1990, que levam a desconstrução nacional e crise social da
Libéria e do Congo-Kinshasa.
Em verdade, pois, o crescimento atual do fator étnico na política revela, na
África, a decomposição do poder nacional como forma de auto-governo.
Neste sentido, a analise histórica dos conflitos étnicos na África, durante o
século XX, revela diversificada instrumentalização e re-significação da identidade
“étnica” como força política. O mesmo fenômeno pode ser encontrado em outros
lugares, desde outras motivações aparentes, em especial, conflitos religiosos.
Neste quesito, pois, a história da África não é tão diferente da história universal.
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Bibliografia
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Leopoldo, RS, Brasil: Editora UNISINOS, 2002.
DIOP, Cheikh A. A origem dos egípcios. In: MOKHTAR, G. História geral da África:
a África antiga. São Paulo: Ática/UNESCO, 1980.
KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. Portugal: Publicações Europa-América,
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MUNANGA, K., MOURA, C. & PEREIRA, R. Historia e culturas ilustradas da África
e sua diáspora brasileira (mimeo). São Paulo: Ministério da Cultura, s./d.
NASCIMENTO, Elisa. L. As civilizações africanas no Mundo Antigo. In: Thot: escriba
dos deuses. Brasília: Gabinete do Senador Abdias Nascimento, no.3 (1997), pp. 223-48.
NEVES, Walter. Africanos vieram antes. Pesquisa Fapesp, n. 66, p. 50-53, jul. 2001.
OLIVER, Roland & FAGE, J. D. Breve histórica da África. Lisboa: Livraria Sá da
Costa, 1980.Muryatan Santana
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